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Le bonheur n’est pas chose aisée: il est très difficile de le trouver en nous, et impossible de le trouver ailleurs. [a felicidade não é uma questão fácil; é muito difícil encontrá-la em nós mesmos, e impossível encontrá-la alhures. (Chamfort)]
Introdução
Nestas páginas falo da sabedoria de vida no sentido imanente, como a arte de percorrer a vida do modo mais agradável e feliz possível; as instruções para isso também podem ser denominadas eudemonologia, pois ensinam como ter uma existência feliz. Tal existência talvez possa ser definida como uma que, vista de uma perspectiva puramente objetiva, ou após uma reflexão fria e madura – pois a questão necessariamente envolve considerações subjetivas –, seria sem dúvida preferível à não-existência; implicando que devemos nos apegar a esta por si mesma, e não apenas pelo medo da morte; assim, que gostaríamos de vê-la durar para sempre. Se a vida humana corresponde, ou poderia corresponder, a tal concepção de existência, é uma questão que, como sabemos, é respondida negativamente pela minha filosofia; entretanto, na eudemonologia, deve ser respondida afirmativamente. Demonstrei, no segundo volume de minha obra capital, capítulo 49, que isso se baseia num erro fundamental. Assim, para poder tratar de uma questão dessa natureza, tive de abandonar completamente o ponto de vista ético e metafísico mais elevado, ao qual minha filosofia conduz. Logo, tudo que será discutido tem por base um certo comprometimento, na medida em que parte da perspectiva do dia-a-dia, conservando seus equívocos. Seu valor será apenas condicional, pois mesmo a palavra eudemonologia não passa de um eufemismo. Ademais, não reclamo completude, em parte porque o tema é inesgotável, e em parte porque teria de repetir o que já foi dito por outros.
Recordo-me somente de um livro escrito com o mesmo propósito que anima esta coleção de aforismos, De utilitate ex adversis capienda [Da Utilidade da Adversidade] de Cardanus, que merece leitura e pode ser empregado como suplemento à presente obra. É verdade que Aristóteles também apresentou uma breve eudemonologia no quinto capítulo de sua Retórica; mas aquilo que disse não chega a muito. Como compilação não é minha área, não me vali desses predecessores; especialmente porque, no processo de compilar, perde-se a coerência e a unidade de vista, os quais constituem o âmago das obras desse gênero. Em geral, os sábios de todos os tempos sempre disseram o mesmo, e os tolos – isto é, a grande maioria de todos os tempos – sempre fizeram o mesmo, ou seja, o oposto; e sempre será assim. Pois, como diz Voltaire, Nous laisserons ce monde-ci aussi sot et aussi méchant que nous l’avons trouvé en y arrivant [partiremos deste mundo tão tolos e maus quanto o encontramos na nossa chegada].
Capítulo I
Divisão fundamental
Aristóteles (Ética a Nicômaco, I. 8) dividiu os bens da vida humana em três classes: aqueles que vêm de fora, aqueles da alma e aqueles do corpo. Preservando dessa divisão somente o número três, observo que as diferenças fundamentais na sina dos homens podem ser reduzidas a três classes distintas:
(1) O que um homem é, ou seja, sua personalidade no sentido mais amplo. Isso inclui saúde, força, beleza, temperamento, caráter moral, inteligência e educação.
(2) O que um homem tem, ou seja, propriedades e posses em todos os sentidos.
(3) O que um homem representa; sabemos que por meio dessa expressão entende-se o que um homem é aos olhos dos demais e, portanto, como é representado por esses. Consiste, assim, na opinião desses ao seu respeito, e pode ser dividida em honra, posição e glória.
As diferenças a serem consideradas em relação à primeira classe são aquelas que a própria natureza estabeleceu entre os homens. Disso pode-se inferir que sua influência sobre a felicidade ou infelicidade da humanidade será muito mais fundamental e radical que aquela abarcada pelas outras duas classes, que são apenas o efeito de decisões e resoluções humanas. Comparados com vantagens pessoais genuínas, como uma grande mente ou um grande coração, todos os privilégios de posição, nascimento, mesmo um nascimento nobre, riqueza e assim por diante, não passam de reis de teatro em comparação com reis na vida real. O mesmo foi dito há muito por Metrodoro, o primeiro discípulo de Epicuro, que deu o seguinte título a um capítulo: majorem esse causam ad felicitatem eam, quae est ex nobis, eâ, quae ex rebus oritur [a causa da felicidade que provém de nós mesmos é maior que aquela proveniente das coisas]. (cf. Clemente de Alexandria, Stromata, II, 21, 362 da edição Würzburg de obras polêmicas). E é óbvio que o elemento principal no bem-estar de um indivíduo – de fato, de todo o seu modo de existir – é aquilo que o constitui, que ocorre dentro dele próprio. Pois isso constitui a fonte imediata de sua satisfação ou insatisfação íntima, que resulta de todo o seu sentir, desejar e pensar. Por outro lado, tudo que o cerca exerce somente uma influência indireta; por esse motivo, os mesmos eventos ou circunstâncias afetam diferentemente cada um de nós; e até com ambientes exatamente iguais, cada qual vive em seu próprio mundo. Pois um homem apenas preocupa-se diretamente com suas próprias idéias, sentimentos e volições; o mundo exterior somente pode influenciá-lo na medida em que traz vida a esses. O mundo em que cada qual vive depende principalmente de sua própria interpretação desse e, assim, mostra-se diferentemente a homens diferentes; para um é pobre, insípido e monótono, para outro é rico, interessante e importante. Por exemplo, apesar de muitos invejarem os acontecimentos interessantes que ocorreram ao longo da vida de um homem, deveriam, em vez disso, invejar seu dom de interpretação que imbuiu tais eventos com a significância que exibem enquanto os descreve. O mesmo evento que parece interessante ao homem de gênio seria somente uma cena monótona e fugidia do mundo corriqueiro quando concebida pela mente superficial de um homem comum. Isso se evidencia no mais elevado grau nos poemas de Goethe e Byron, que obviamente se baseiam em fatos reais. É possível que o leitor tolo inveje o poeta por tantas coisas encantadoras lhe terem sucedido em vez de invejar o grandioso poder imaginativo que foi capaz de transformar uma experiência corriqueira em algo tão notável e belo. Do mesmo modo, um homem de disposição melancólica vê uma cena trágica onde outro, de temperamento sanguíneo, vê apenas um conflito interessante, e uma alma fleumática vê algo trivial e insípido. Isso tudo se deve ao fato de que toda realidade, isto é, todo momento de experiência factual, consiste de duas metades, o sujeito e o objeto, apesar dessas estarem conectadas de modo tão íntimo e necessário como oxigênio e hidrogênio na água. Assim, quando a metade objetiva é exatamente a mesma, mas a subjetiva é diferente, a realidade presente é tão distinta aos olhos de cada indivíduo como se os fatores objetivos fossem diferentes; a melhor e mais encantadora metade objetiva, com uma metade subjetiva embotada e inferior, resulta numa realidade inferior, como uma paisagem magnífica com um clima carregado ou uma reflexão de uma camera obscura ruim. Em palavras claras, todos estão confinados à sua própria consciência assim como estão confinados à sua própria pele; logo, a ajuda externa não é de grande valia. No teatro, um homem é um príncipe, outro é um ministro, um terceiro é um servo, um soldado ou um general, e assim por diante. Tais diferenças, todavia, existem apenas superficialmente; no interior, como o âmago de tal fenômeno, encontramos o mesmo em todos, ou seja, um pobre ator com seus desejos e preocupações. Sucede exatamente o mesmo na vida. Diferenças de posição e riqueza determinam o papel de cada homem, mas certamente não existe uma diferença interna de felicidade e satisfação correspondente a esse papel. Pelo contrário, também aqui há em todos o mesmo pobre-diabo, com suas preocupações e suas misérias. Materialmente, esses podem ser diferentes em cada indivíduo, mas em sua forma – e, portanto, em sua natureza essencial – são basicamente os mesmos, com graus de intensidade que, sem dúvida, variam, mas que de forma alguma correspondem à posição e à riqueza, isto é, ao papel que cabe do indivíduo. Como tudo que existe ou acontece para um homem existe somente em sua consciência e só acontece para esta, a coisa mais essencial para um homem é a constituição de sua consciência, a qual na maior parte dos casos é muito mais importante que as formas que se apresentam nesta. Toda a pompa e prazer do mundo, espelhados na consciência embotada de um tolo, são muito pobres quando comparados com a imaginação de Cervantes escrevendo Don Quixote numa prisão miserável. A metade objetiva da realidade presente está nas mãos do destino, que toma formas diversas em cada caso; a metade subjetiva somos nós próprios, que essencialmente permanece sempre a mesma. Portanto, a vida de todo homem, do princípio ao fim, carrega o mesmo caráter, independentemente de toda mudança exterior, e é comparável a uma série de variações sobre um mesmo tema. Ninguém é capaz de ir além de sua própria individualidade. Um animal, quaisquer sejam as circunstâncias às quais esteja submetido, permanece confinado a um pequeno círculo irrevogavelmente determinado pela natureza, de tal forma que, por exemplo, nossos esforços para agradar um animal de estimação devem sempre se manter dentro dessas fronteiras exatamente devido aos limites de sua verdadeira natureza, restritos ao que esse pode sentir. Acontece o mesmo com o homem; a medida de sua felicidade possível é determinada de antemão por sua individualidade. Particularmente, os limites de seus poderes mentais fixaram em definitivo sua capacidade para prazeres de natureza mais elevada. (cf. O Mundo como Vontade e Representação, vol. II, cap. 7) Se tais poderes forem pequenos, nenhum esforço exterior, nada que seus companheiros ou que seu destino fizer será suficiente para elevá-lo além do grau habitual de felicidade humana e prazer meio-animais. O que lhe resta são os prazeres dos sentidos, uma confortável e alegre vida familiar, má companhia e passatempos vulgares. Mesmo a educação, no todo, não pode oferecer muito, se é que oferece algo, para ampliar seu horizonte. Pois os prazeres mais elevados, variados e duradouros são os do espírito, independentemente do quanto nos enganamos em relação a isso na juventude; mas tais prazeres dependem principalmente de nossos poderes intelectuais inatos. É óbvio, portanto, o quanto nossa felicidade depende daquilo que somos, de nossa individualidade, embora normalmente levemos em consideração apenas nossa sorte ou destino, apenas aquilo que possuímos ou representamos. Nossa sorte, nesse sentido, pode melhorar; mas, se formos interiormente ricos, não pediremos muito dela. Por outro lado, um tolo permanece um tolo, um estúpido permanece um estúpido, até o fim de sua vida, mesmo se rodeado por houris no paraíso. Por isso Goethe diz:
Volk und Knecht und Überwinder,
Sie gestehn zu jeder Zeit:
Höchstes Glück der Erdenkinder
Sei nur die Persönlichkeit.
[Povo, servo e mestre, Todos juntos reconhecem, Que o supremo bem dos mortais, É só sua personalidade. (Westöstlicher Diwan)]
Tudo confirma que o subjetivo é incomparavelmente mais essencial à nossa felicidade e prazer que o objetivo, desde dizeres como Fome é o melhor tempero, Juventude e Idade não podem viver juntas, até a vida do gênio e o santo. A saúde sobrepuja os demais bens externos de tal forma que se pode dizer que um mendigo saudável é mais feliz que um rei enfermo. Um temperamento sereno e alegre, feliz em gozar de uma saúde perfeita, uma compreensão nítida, vivaz e penetrante, que vê as coisas corretamente, uma vontade moderada e suave, e, portanto, uma boa consciência – essas são vantagens que nenhuma posição ou riqueza podem compensar ou substituir. Pois aquilo que um homem é por si mesmo, aquilo que o acompanha em sua solidão e aquilo que ninguém pode proporcionar ou subtrair, obviamente, lhe é mais essencial que tudo o que possui, ou mesmo ao que pode ser aos olhos dos outros. Um homem de intelecto, em completa solidão, encontra um excelente entretenimento em seus próprios pensamentos e imaginação, enquanto a contínua diversidade de festas, peças, excursões e diversões é incapaz de proteger um tolo das torturas do tédio. Um indivíduo bom, moderado, brando pode ser feliz em circunstâncias adversas, enquanto outro, ambicioso, invejoso e malicioso, mesmo sendo o mais rico do mundo, sente-se miserável. De fato, para o homem que desfruta da constante satisfação de uma individualidade extraordinária e intelectualmente eminente, a maioria dos prazeres perseguidos pela humanidade é simplesmente supérflua; são apenas um estorvo e um fardo. Assim, Horácio diz de si próprio:
Gemmas, marmor, ebur, Tyrrhena sigilla, tabellas,
Argentum, vestes Gaetulo murice tinctas,
Sunt qui non habeant, est qui non curat habere;
[Marfim, mármore, berloques, estátuas tirrenas, pinturas, prataria, roupas tingidas de púrpura getuliana, Muitos passam sem tais coisas, outros sequer se importam. (Epistulae, II.2.180.)]
e quando Sócrates viu vários artigos de luxo postos à venda, disse: Quantas coisas há no mundo das quais não preciso!
Assim, para a felicidade de nossa vida, aquilo que somos, nossa personalidade, é absolutamente primária e essencial; no mínimo porque é um fator constante, influente em quaisquer circunstâncias. Ademais, diferentemente dos bens descritos nas outras duas classes, não está sujeita à sorte e não nos pode ser subtraída. Sendo, nesse sentido, dotada de um valor absoluto em contraste com o valor apenas relativo das outras duas. Segue-se disso que controlar um homem externamente é muito mais difícil do que se supõe normalmente. Mas aqui o agente todo-poderoso, Tempo, exercita seu direito, e vantagens físicas e mentais sucumbem lentamente ante sua influência; apenas o caráter moral permanece inacessível. Tendo em vista o efeito destrutivo do tempo, naturalmente pareceria que os bens enumerados nas outras duas classes, os quais o tempo não pode nos roubar diretamente, têm uma vantagem sobre aqueles da primeira. Uma segunda vantagem poderia ser encontrada no fato de que tais bens existem de modo objetivo, de que são acessíveis por natureza, e que todos têm diante de si ao menos a chance de possuí-los, enquanto que o subjetivo não é passível de aquisição, mas introduz-se jure divino [por direito divino] e é fixado permanentemente por toda a vida, de modo que as palavras de Goethe inexoravelmente se aplicam:
Wie an dem Tag, der dich der Welt verliehen,
Die Sonne stand zum Gruße der Planeten,
Bist alsobald und fort und fort gediehen,
Bach dem Gesetz, wonach du angetreten.
So musst du sein, dir kannst du nicht entfliehen,
So sagten schon Sibyllen, so Propheten;
Und keine Zeit und keine Macht zerstückelt
Geprägte Form, die lebend sich entwickelt.
[Como no dia que te deu ao mundo, O sol estava ali para saudar os planetas, Tu também te hás engrandecido sem cessar, Em virtude da lei segundo a qual havias começado. Tal é teu destino; não podes fugir, Assim falaram as Sibilas e os Profetas; Nenhum tempo, nenhum poder quebranta A forma impressa que se desenrola no curso da vida.]
Nesse sentido, a única coisa que permanece ao nosso alcance é tirar o máximo proveito possível de nossa personalidade e, portanto, seguir apenas aquelas tendências com as quais está de acordo, lutando pelo tipo de desenvolvimento apropriado, evitando todo o mais; consequentemente, escolher a posição, ocupação e estilo de vida que sejam adequados.
Um homem de força hercúlea, dotado de poder muscular excepcional, que é levado a desempenhar uma atividade sedentária por circunstâncias externas, realizar tarefas diminutas e intrincadas manualmente ou dedicar-se a estudos e trabalhos mentais que exigem poderes completamente distintos daqueles que possui, consequentemente, deixando em desuso os poderes nos quais se sobressai, nunca em sua vida será feliz. Ainda mais infeliz será o homem dotado de poderes intelectuais de altíssima ordem que precisa deixá-los inexplorados para executar tarefas comuns, nas quais seu emprego é desnecessário, ou mesmo tarefas físicas para as quais sua força é inadequada. Ainda assim, especialmente na juventude, devemos nos policiar quanto a conclusões precipitadas que nos atribuam mais poderes do que possuímos.
Tendo em vista a evidente superioridade dos bens da primeira classe em relação aos das outras duas, segue-se que é mais sábio ter como meta a manutenção de nossa saúde e o cultivo de nossas faculdades que a aquisição de riqueza. Todavia, isso não deve ser entendido no sentido de que devemos negligenciar a aquisição do que é necessário e apropriado. Riqueza, no sentido estrito, isto é, grande superfluidade, pode realizar pouco pela nossa felicidade. Muitas pessoas ricas são infelizes porque carecem de qualquer cultura mental, de qualquer conhecimento e, portanto, de qualquer interesse objetivo que poderia qualificá-las para atividades intelectuais. Aquilo que a riqueza pode proporcionar, além da satisfação de certas necessidades reais e naturais, tem pouca influência sobre nossa felicidade propriamente dita; pelo contrário, esta é perturbada pelas muitas e inevitáveis preocupações envolvidas na preservação de grandes propriedades. Contudo, os indivíduos são mil vezes mais preocupados em se tornarem ricos que na aquisição de cultura, embora seja quase certo que aquilo que somos contribui muito mais à nossa felicidade que aquilo que temos. Então vemos muitos, industriosos como formigas, trabalhando incessantemente para ampliar a riqueza que já possuem. Além do estreito horizonte dos meios para esse fim, não sabem nada; suas mentes estão em branco e, consequentemente, impassíveis de quaisquer outras influências. Os prazeres mais elevados, aqueles do espírito, lhes são inacessíveis e em vão tentam substituí-los pelos fugidios prazeres dos sentidos, aos quais se entregam ocasionalmente com pouco gasto de tempo, mas muito de dinheiro. Com boa sorte, no fim de suas vidas terão como resultado uma enorme quantidade de dinheiro, que então deixam para seus herdeiros, seja para ampliá-la ainda mais ou esbanjá-la. Tal vida, embora exercida com grande seriedade e um ar de importância, é tão tola quanto tantas outras que têm um chapéu de burro como símbolo.
Aquilo que um homem tem em si próprio é, portanto, o elemento mais essencial à sua felicidade. Devido a isso, em regra, a maior parte daqueles que estão à parte da luta contra a penúria no fundo sentem-se tão infelizes quanto os que se encontram engajados nesta. O vazio de suas vidas interiores, a obtusidade de suas consciências, a pobreza de suas mentes os levam à companhia de outros homens como a si mesmos, pois similis simili gaudet [cada qual com o seu igual]. Procuram, então, passatempo e entretenimento em comum, inicialmente em prazeres sensuais, em diversões de toda espécie e, finalmente, no excesso e libertinagem. A origem de tal extravagância deplorável, por meio da qual muitos jovens de famílias abastadas, ao ingressarem na vida com um grande patrimônio, comumente atravessam-na com extrema rapidez, não é outra senão o tédio que emerge da pobreza e vacuidade mentais que acabei de descrever. Esse jovem foi lançado no mundo com riquezas exteriores, mas interiormente pobre, e em vão procurou compensar sua pobreza interna tentando obter tudo do exterior, analogamente a homens idosos que tentam se fortalecer através do fôlego de mulheres jovens. No fim, a pobreza interior também produziu pobreza externa.
É desnecessário enfatizar a importância dos outros dois tipos de bens responsáveis pela felicidade na vida humana. Pois, nos dias de hoje, o valor das posses é reconhecido tão universalmente que dispensa recomendações. Comparada com a segunda classe, a terceira aparenta um caráter muito etéreo, visto que consiste apenas nas opiniões dos demais. Não obstante, todos precisam empenhar-se pela honra, isto é, um bom nome; a posição é aspirada apenas por aqueles que servem o Estado, e a glória por realmente muito poucos. Entretanto, a honra é tida como um tesouro inestimável, e a glória como o bem mais precioso que um homem pode alcançar, o Tosão de Ouro dos eleitos; por outro lado, apenas tolos prefeririam posição à riqueza. Ademais, os bens da segunda e terceira classes agem e reagem entre si na medida em que a máxima de Petrônio habes, habeberis [um homem vale aquilo que possui] estiver correta; em contrapartida, opiniões favoráveis de outrem, em todas as formas, auxiliam-nos na obtenção de posses.
Capítulo II
O que um homem é
Como já vimos em linhas gerais, aquilo que um homem é contribui muito mais à sua felicidade que aquilo que possui ou representa. Essa sempre depende daquilo que o homem é e, portanto, encerra em si próprio; pois sua individualidade o acompanha em todo tempo e lugar, e assim esta colore tudo aquilo que vivencia. Em toda espécie de gozo, o homem encontra prazer principalmente em si próprio; se isso é verdadeiro em relação aos prazeres físicos, então quão mais em relação àqueles do intelecto! As palavras inglesas to enjoy oneself [divertir-se] constituem uma expressão muito adequada; por exemplo, não dizemos he enjoys Paris [ele gosta de Paris], mas he enjoys himself in Paris [ele diverte-se em Paris]. Porém, se a individualidade estiver mal condicionada, todos os prazeres serão como vinhos finos numa boca impregnada de fel. Assim, se deixarmos de lado os casos de grande infortúnio, tanto nas coisas boas quanto nas ruins, importa menos aquilo que acontece conosco que o modo como o encaramos, isto é, nossa natureza e grau de suscetibilidade geral. Aquilo que um homem é e tem em si, ou seja, sua personalidade e seu valor, é o único fator imediato em sua felicidade e bem-estar. Todo o resto é mediato e indireto, de modo que sua influência pode ser neutralizada e frustrada; mas nunca a influência da personalidade. Por tal razão, a inveja incitada por qualidades pessoais é a mais implacável, e também a mais cuidadosamente dissimulada. Ademais, a constituição de nossa consciência é o elemento presente e permanente em tudo que fazemos ou sofremos; nossa individualidade trabalha mais ou menos incessantemente durante toda a nossa vida; todas as outras influências, por outro lado, são temporais, ocasionais, fugazes e sujeitas à variação e à mudança. Aristóteles disse: nam natura perennis est, non opes [a natureza é eterna, não as coisas. (Ética a Eudemo, VII. 2)]. Isso se deve ao fato de que podemos suportar mais facilmente um infortúnio que nos atinge externamente que aquele que criamos para nós mesmos, pois o destino pode mudar, mas nunca nossa própria natureza. Desse modo, bens subjetivos como um caráter nobre, uma mente privilegiada, um temperamento aprazível, uma alma radiante e um corpo bem constituído, perfeitamente são, numa palavra, mens sana in corpore sano [mente sã em corpo são (Juvenal, Sátiras, X. 356)], são os elementos primários e principais à nossa felicidade. Assim, devemos nos preocupar muito mais com a preservação de tais qualidades que com a aquisição de riquezas e honras externas.
E, de todas essas qualidades, aquela que nos torna mais imediatamente felizes é a disposição alegre; pois essa excelente qualidade é sua própria recompensa imediata. Aquele que é alegre e jovial sempre tem uma boa razão para assim ser – o próprio fato de sê-lo. Nada pode compensar tão bem pela perda de qualquer outro bem como essa qualidade, enquanto que ela própria não pode ser substituída por nenhuma outra. Um homem pode ser jovem, belo, rico e estimado; se quisermos saber de sua felicidade, devemos perguntar se é alegre. Por outro lado, se for alegre, não importa se é jovem ou velho, aprumado ou corcunda, rico ou pobre; ele é feliz. Em minha juventude, certa vez abri um velho livro e encontrei estas palavras: Aquele que ri muito é feliz; aquele que chora muito é infeliz, uma observação muito singela, tão evidente que fui incapaz de esquecê-la, não obstante que seja o superlativo de um truísmo. Por isso devemos sempre manter nossas portas abertas à alegria, pois sua presença nunca é inoportuna. Em vez disso, frequentemente hesitamos em deixá-la entrar, pois antes queremos saber se temos motivos suficientes para estarmos contentes; ou porque receamos ser atrapalhados pela alegria quando estamos envolvidos em deliberações sérias e cuidados importantes. Mas aquilo que se ganha com isso é muito incerto, enquanto que a alegria é um ganho imediato. Apenas esta é, por assim dizer, a verdadeira moeda da felicidade e não, como todo o resto, apenas um cheque em branco; pois é a única coisa que pode nos tornar imediatamente felizes no momento presente. Assim sendo, constitui o maior dos bens para seres cuja realidade apresenta a forma de um momento presente infinitesimal situado entre duas eternidades. Assegurar e promover esse bem constitui o objetivo supremo na busca pela felicidade. É certo que nada contribui menos à alegria que a riqueza, e nada contribui mais que a saúde. As classes baixas ou os trabalhadores, especialmente aqueles que vivem no campo, têm as expressões mais alegres e contentes; a rabugice e o mau-humor estão em casa entre os ricos, as classes altas. Consequentemente, devemos fazer todo o possível para manter um alto grau de saúde, pois seu florescer é a própria alegria. Para tal fim, como se sabe, devemos evitar excessos e irregularidades, todas as emoções violentas e desagradáveis, todo o esforço mental demasiado grande ou prolongado, realizar exercícios diários a céu aberto, banhos frios e medidas similares. Pois, sem a quantidade adequada de exercício diário, ninguém pode permanecer saudável; todos os processos vitais requerem exercício para funcionarem corretamente, não apenas as áreas mais diretamente envolvidas, mas também o corpo como um todo. Pois, como Aristóteles corretamente diz, a vida é movimento. A vida consiste de movimento e nisso reside sua própria essência. Movimentos rápidos e incessantes ocorrem em todas as partes do organismo; o coração, com seu complicado movimento duplo de sístole e diástole, bate impetuosamente e incansavelmente; com vinte e oito batidas, conduz a massa inteira de sangue através de todas as artérias, veias e capilares; os pulmões bombeiam incessantemente como uma máquina a vapor; os intestinos se contraem sem cessar em motus peristalticus [movimento peristáltico]; todas as glândulas absorvem e secretam sem interrupção; mesmo o cérebro tem seu próprio movimento duplo com cada batimento cardíaco e cada aspiração do pulmão. Quando há uma ausência quase completa de movimento externo, como ocorre no gênero sedentário de vida de tantos indivíduos, resulta uma notável e perniciosa desproporção entre o repouso externo e o tumulto interno. Pois o constante movimento interno requer auxílio parcial por parte do exterior. Essa falta de proporção é análoga ao caso onde, em consequência de alguma emoção, irrompe dentro de nós algo que somos obrigados a suprimir. Até as árvores, para florescer, precisam ser agitadas pelo vento. Aqui se aplica uma regra que pode ser anunciada de forma mais concisa em latim: omnis motus, quo celerior, eo magis motus [quanto mais rápido é um movimento, tanto mais é movimento]. Para vermos o quanto nossa felicidade depende de uma disposição alegre, e esta do nosso estado de saúde, comparemos a influência que as mesmas circunstâncias externas ou eventos têm sobre nós quando saudáveis e vigorosos com a que se produz quando um estado enfermo nos deixa deprimidos e inquietos. Não são as coisas objetivamente e nelas mesmas, mas o que são para nós e para nossa percepção aquilo que nos torna felizes ou infelizes. Isso é exatamente o que Epíteto diz: commovent homines non res sed de rebus opiniones [não são as coisas que comovem os homens, mas suas opiniões sobre as coisas]. Em geral, nove décimos de nossa felicidade dependem somente da saúde. Com ela, tudo se transforma numa fonte de prazer, enquanto que sem ela não podemos desfrutar de nada, qualquer seja a sua natureza, e mesmo os outros bens subjetivos, como qualidades mentais, disposição e temperamento, são degradados e diminuídos pela saúde precária. Assim, não é sem razão que, quando duas pessoas se encontram, primeiramente perguntam sobre o estado de saúde uma da outra, esperando que estejam bem; porque isso, de fato, é o que há de mais importante para a felicidade. Segue-se que a maior das tolices é sacrificar nossa saúde a qualquer coisa, seja riqueza, carreira, estudos, glória e, especialmente, prazeres sensuais e outros gozos fugidios; em vez disso, deveríamos colocar a saúde em primeiro lugar.
Por maior que seja a contribuição da saúde à alegria, que é tão essencial à felicidade, essa não depende apenas da saúde; porque, mesmo com uma saúde perfeita, podemos ter um temperamento melancólico e uma disposição predominantemente triste. A razão para isso, sem dúvida, encontra-se na constituição primária e, por conseguinte, inalterável do organismo, e mais especificamente na relação mais ou menos normal da sensibilidade com a irritabilidade e o poder de reprodução. Uma sensibilidade excessiva produzirá uma desigualdade de humor, excessos de alegria periódicos e melancolia predominante. Como o gênio é condicionado por um excesso de força nervosa e, assim, de sensibilidade, Aristóteles muito corretamente observou que todos os homens ilustres e eminentes são melancólicos: Todos os homens que se distinguiram na filosofia, na política, na poesia ou nas artes parecem ter sido melancólicos (Problemata, 30, I, Berlin edn.). Essa, sem dúvida, é a passagem que Cícero tinha em mente naquela frase tão citada, Aristoteles ait, omnes ingeniosos melancholicos esse [Aristóteles diz que todos os homens de gênio são melancólicos. (Tusculanae disputationes, I. 33)]. Shakespeare fez uma descrição muito graciosa da grande e inata diversidade do temperamento geral:
Nature hath fram’d strange fellows in her time:
Some that will evermore peep through their eyes,
And laugh, like parrots, at a bag-piper;
And others of such vinegar aspect,
That they’ll not show their teeth in way of smile,
Though Nestor swear the jest be laughable.
[A natureza, agora, confecciona sujeitos bem curiosos: uns, de olhos apertados, riem, como papagaio trepado numa gaita de foles; outros andam com tal cara de vinagre, que nunca os dentes mostram à guisa de sorriso, muito embora Nestor jurasse que a pilhéria é boa. (O Mercador de Veneza, ato I, cena I)]
Essa é exatamente a diferença descrita por Platão com as expressões δύσκολος [de humor difícil] e εὔκολος [de humor fácil], a qual pode ser relacionada à grande diversidade de suscetibilidade exibida por pessoas diferentes perante impressões agradáveis e desagradáveis, em consequência da qual um homem ri daquilo que leva outro ao desespero. Normalmente, quanto mais fraca é a suscetibilidade a impressões agradáveis, maior é para as desagradáveis, e vice versa. Com possibilidades iguais e êxito ou fracasso de um evento, o δύσκολος ficará incomodado ou angustiado se o evento fracassar, mas não se alegrará com o êxito. Por outro lado, o εὔκολος não ficará incomodado ou angustiado se o evento fracassar, mas se regozijará se houver êxito. Se o δύσκολος tiver, em seus empreendimentos, sucesso em nove de dez, não ficará satisfeito, mas contrariado porque um dos empreendimentos fracassou. Por outro lado, o εὔκολος é capaz de encontrar consolo e alegria mesmo num único êxito no empreendimento. Assim como dificilmente encontramos um mal sem compensação, mesmo aqui vemos que o δύσκολος e, portanto, aqueles de caráter sombrio e inquieto, tendem a suportar mais desgraças e sofrimento imaginários, enquanto, em contrapartida, menos desgraças e sofrimentos reais que os de caráter alegre e despreocupado. Pois o homem que vê tudo negro sempre pensa no pior e, assim, tomando precauções, não terá desilusões tão frequentes como aquele que vê as coisas em cores e perspectivas promissoras. Todavia, quando uma afecção mórbida do sistema nervoso ou do aparelho digestório manifesta um δυσκολία [mau humor] inato, isso pode chegar ao grau em que a insatisfação permanente produz um cansaço de viver e, consequentemente, surge uma tendência ao suicídio. Mesmo a menor contrariedade pode provocá-lo; quando o mal atinge o grau mais elevado, a contrariedade nem mesmo é necessária. Pelo contrário, um homem decide cometer suicídio apenas em consequência de uma insatisfação permanente; o suicídio é cometido com deliberação tão fria e resolução firme que o enfermo – nesta etapa, normalmente já sob certa supervisão – se vale do primeiro momento oportuno para recorrer, sem hesitação, sem esforço ou espanto, à forma de alívio que, naquele momento, é tão natural e oportuna. Descrições detalhadas desse estado mental são fornecidas por Esquirol em Des maladies mentales. Mesmo o homem mais saudável, talvez mesmo o mais alegre, pode em certas circunstâncias decidir cometer suicídio, por exemplo, quando a magnitude de seu sofrimento ou desgraça inevitável são maiores que os terrores da morte. A diferença está somente na magnitude do sofrimento necessário, que é inversamente proporcional ao grau de δυσκολία. Quanto maior for esse, tanto menor poderá ser o motivo, até chegar a zero. Pelo contrário, quanto maior for o εὐκολία [bom humor] e a saúde que o sustenta, tanto maior deverá ser o peso do motivo. Há, pois, inumeráveis casos entre os dois extremos do suicídio, entre seu surgimento de uma intensificação mórbida de um δυσκολία inato e de seu surgimento no homem saudável e alegre, oriundo de motivos puramente objetivos.
A beleza é parcialmente análoga à saúde. Apesar de esse bem subjetivo não contribuir diretamente à nossa felicidade, mas apenas indiretamente, pela impressão que produz em outrem, tem, não obstante, uma grande importância até mesmo ao homem. A beleza é uma carta aberta de recomendação que nos conquista corações de antemão; especialmente aqui se aplicam os versos de Homero:
Não se despreza os dons gloriosos dos deuses,
Que eles somente podem dar e que ninguém
Pode aceitar ou recusar por capricho.
(Ilíada, III, 65.)
Uma análise geral evidencia que a dor e o tédio são os dois inimigos da felicidade humana. Ademais, pode-se observar que, na medida em que conseguimos nos afastar de um, nos aproximamos do outro, e vice versa. E assim nossa vida realmente denota uma oscilação mais ou menos violenta entre ambos. Isso se origina do fato de que os dois têm entre si um antagonismo duplo, um exterior ou objetivo, e outro interior ou subjetivo. Externamente, necessidade e privação produzem dor; por outro lado, segurança e abundância engendram tédio. Assim, vemos as classes baixas lutando constantemente contra a privação e, portanto, contra a dor; por outro lado, as classes altas e ricas estão engajadas numa constante e, não raro, desesperada luta contra o tédio. [1] O antagonismo interior ou subjetivo entre a dor e o tédio deve-se ao fato de que, num indivíduo, sua suscetibilidade a um mal é inversamente proporcional à sua suscetibilidade ao outro, visto que isso é determinado pelo seu grau de capacidade intelectual. Porque a obtusidade mental é geralmente acompanhada pela obtusidade das sensações e ausência de sensibilidade, qualidades que tornam o indivíduo menos suscetível às dores e aflições de todo gênero e intensidade. Por outro lado, o resultado dessa obtusidade mental é o vazio interior que se estampa em inúmeros semblantes e que se evidencia por uma constante e vívida atenção a todos os acontecimentos do mundo exterior, mesmo os mais banais. Esse vazio é a verdadeira fonte do tédio, e continuamente almeja excitações externas como pretexto para ocupar sua mente e seus sentidos. O tipo de coisa que indivíduos escolhem para tal fim mostra que não são meticulosos, como evidenciado pelos miseráveis e infelizes passatempos aos quais as pessoas recorrem e também pela natureza de sua sociabilidade e conversação, e não menos pelo grande número de imbecis e mexeriqueiros que andam pelo mundo. O resultado principal desse vazio interior é a busca por reuniões, diversões, prazeres e luxo de toda espécie, conduzindo muitos à extravagância e, assim, à miséria. Nada nos protege mais certamente desses extravios como a riqueza interior, a riqueza do espírito, pois quanto mais eminente esse se torna, menos espaço resta para o tédio. O exercício incessante dos pensamentos, sua atividade constantemente renovada em presença das manifestações diversas do mundo interior e exterior, a força e a capacidade das combinações sempre diferentes, situam um espírito eminente, exceto nos momentos de fadiga, fora do alcance do tédio. Por outro lado, essa inteligência superior é diretamente condicionada por uma sensibilidade elevada e está enraizada numa maior impetuosidade da vontade e, por conseguinte, da paixão. Da união dessas qualidades resulta uma intensidade muito maior de todas as emoções e uma elevada sensibilidade às dores espirituais e também às físicas, uma impaciência ainda maior na presença de obstáculos ou maior rancor pelo empecilho. Tudo isso contribui grandemente para um aumento de todo o espectro de pensamentos e concepções, logo, também de idéias desagradáveis, cuja vivacidade se origina da força da imaginação. Isso se aplica, guardadas as proporções, a todos os estágios intermediários entre os dois extremos, do imbecil mais obtuso até o maior o gênio. Por conseguinte, tanto objetivamente como subjetivamente, quanto mais alguém se aproxima de uma dessas fontes de sofrimento humano, mais se distancia da outra. Sua tendência natural, então, o levará a adaptar, tanto quanto possível, o objetivo ao subjetivo e, dessa forma, precaver-se contra aquela fonte de sofrimento à qual é mais suscetível. Os homens inteligentes e sábios buscarão, primeiramente, se libertar do sofrimento e das moléstias, e encontrar quietude e repouso, isto é, uma vida tranquila e modesta que se resguarda ao máximo de transtornos. Depois de alguma convivência com o que se denomina seres humanos, optarão por uma vida de isolamento ou, no caso de um intelecto elevado, de solidão. Pois quanto mais um homem encontra em si próprio, tanto menos precisa do exterior e menos úteis podem ser as demais pessoas. Por esse motivo, um homem de intelecto elevado tende à insociabilidade. Na verdade, se a qualidade da sociedade pudesse ser substituída pela quantidade, talvez valesse a pena viver no vasto mundo; mas, infelizmente, uma centena de tolos aglomerados ainda não produziria um homem inteligente. Por outro lado, assim que a necessidade e a privação permitirem ao homem no outro extremo recuperar o fôlego, buscará a qualquer custo passatempo e companhia, e se acomodará prontamente a qualquer coisa, desejando, acima de tudo, fugir de si mesmo. Na solidão, onde todos se vêem limitados aos seus próprios recursos, o indivíduo enxerga o que tem em si mesmo. O tolo em trajes finos suspira sob o fardo de sua própria individualidade miserável, da qual não pode se livrar, enquanto o homem de grandes dotes povoa e anima com seus pensamentos a região mais deserta e desolada. Há, pois, muita verdade no que Sêneca diz: omnis stultitia laborat fastidio sui [toda estultice sofre o fastio de si mesma. (Epistulae, 9)], e também na sentença de Jesus de Sirach, A vida de um tolo é pior que a morte. Logo, em geral, constataremos que todos são sociáveis na medida em que são intelectualmente pobres e vulgares. [2] Pois, neste mundo, temos pouca escolha entre a solidão e a vulgaridade. Supõe-se que os seres humanos mais sociáveis são os negros, os quais, sem dúvida, são intelectualmente inferiores. Lembro-me de ter lido num periódico francês (Le Commerce, 19 Outubro 1837) que os negros na América do Norte, tanto os livres quanto os escravos, se reúnem em grande número nos menores espaços, pois nunca se cansam de ver refletidas suas caras negras de nariz achatado. O cérebro, pois, parece ser um parasita ou inquilino do organismo inteiro, e o ócio, isto é, o tempo que cada um tem para desfrutar livremente da própria consciência ou individualidade, é o fruto ou resultado de toda a sua existência, que em geral consiste apenas de trabalho e dor. Mas o que resulta do ócio da maioria dos homens? Tédio e imbecilidade; exceto quando estão ocupados com prazeres sensuais ou desvarios. O modo como tais pessoas desfrutam de seu ócio demonstra que esse não vale nada; é o ozio lungo d’uomini ignoranti [tédio dos homens ignorantes] de Ariosto. O homem vulgar só pensa em como passar o tempo; o homem de talento tenta aproveitá-lo. Indivíduos de inteligência limitada estão tão expostos ao tédio porque seu intelecto não passa de um intermediário dos motivos para sua vontade. Se em certo momento não houver quaisquer motivos particulares para pôr a vontade em ação, essa repousa e seu intelecto tira folga, pois, assim como a vontade, esse requer algo externo para entrar em atividade. O resultado é uma terrível estagnação de todos os poderes do homem por completo, isto é, tédio. Para combatê-lo, os homens se lançam em trivialidades que agradam provisoriamente a fim de estimular a vontade e, assim, por em atividade o intelecto, que terá de interpretá-las. Tais motivos são, pois, em relação aos motivos reais e naturais, aquilo que o papel-moeda é em relação ao dinheiro, visto que seu valor é determinado arbitrariamente. Tais motivos são jogos de cartas e outros, que foram inventados exatamente para esse propósito. Na falta desses, o homem de inteligência limitada por-se-á a batucar e brincar com tudo aquilo que cair em suas mãos. Até mesmo um cigarro é bem-vindo como substituto para o pensamento. Por isso, em todos os países, o principal entretenimento da sociedade é o jogo de cartas; é a medida do valor dessas reuniões e a manifesta bancarrota de todas as idéias e pensamentos. Não tendo nenhuma idéia para trocar, trocam cartas, e tentam ganhar o dinheiro uns dos outros. Que espécie deplorável! Para não ser injusto, não deixo de dizer que, em defesa dos jogos de carta, poderia ser explicado como um treinamento preliminar para a vida no mundo dos negócios, na medida em que é uma maneira de aprender a aproveitar-se inteligentemente das circunstâncias invariáveis estabelecidas pelo azar (das cartas, neste caso) a fim de extrair delas o máximo possível. Para tal finalidade, precisamos aprender um pouco de dissimulação e como dar uma cara boa a um mau negócio. Exatamente por isso, o jogo de cartas tem um efeito desmoralizante, visto que o espírito do jogo é ganhar aquilo que outro possui através de quaisquer meios, truques e estratagemas. Mas o hábito de proceder dessa forma, adquirido no jogo, se arraiga, se infiltra na vida prática e, nas questões do dia-a-dia, o homem gradualmente passa a proceder da mesma maneira quando se trata de meum e tuum, considerando justificáveis quaisquer vantagens que tiver em mãos, conquanto sejam permitidas legalmente. Os acontecimentos vulgares provam-no todos os dias. Como disse, o ócio livre é a flor, ou melhor, o fruto da existência de todo indivíduo, visto que apenas esse o coloca em posse de si próprio. Devemos, pois, julgar felizes aqueles que preservam em si próprios algo de valor; mas, para a maioria, o ócio resulta somente numa criatura imprestável que é terrivelmente entediada e um fardo para si mesma. Alegremo-nos, pois, meus queridos irmãos, de ser filhos não de escravas, mas de mães livres. (Gálatas 4:31)
Ademais, assim como o país mais feliz é aquele que tem pouca ou nenhuma necessidade de importação, também o homem mais afortunado é aquele a quem basta sua própria riqueza interior e que requer para seu entretenimento e diversão pouco ou nada do exterior. Pois importações são custosas, tornam-nos dependentes, implicam perigos, ocasionam problemas e incômodos e, no fim, são apenas um substituto inferior para a nossa própria produção. Não devemos esperar muito dos outros ou do mundo exterior em geral. Aquilo que um homem pode ser para outro não é grande coisa; no fim, todos acabam sozinhos, e a grande questão é quem está sozinho. A esse propósito, Goethe observou (Dichtung und Wahrheit, vol. III, p. 474) de maneira geral que, essencialmente, em todas as coisas, cada qual está reduzido a si próprio, ou, como diz Oliver Goldsmith:
Still to ourselves in ev’ry place consign’d,
Our own felicity we make or find.
[Reduzidos em qualquer lugar a nós mesmos, criamos ou encontramos nossa felicidade. (O Viajante, II. 431 e seg.)]
Cada qual deve, por si próprio, ser e proporcionar-se o melhor e o mais importante. Quanto mais esse for o caso, quanto mais o indivíduo encontrar em si próprio as causas de seus prazeres, mais feliz será. Portanto, com razão Aristóteles diz: a felicidade pertence àqueles que se bastam a si mesmos (Ética a Eudemo, VII. 2). Pois todas as fontes externas de felicidade e prazer são, por natureza, extremamente incertas, precárias, fugidias e sujeitas a mudança; portanto, mesmo sob as circunstâncias mais favoráveis, podem facilmente se esgotar; com efeito, isso é inevitável, pois nem sempre estão ao nosso alcance. Em idade avançada, quase todas essas fontes de felicidade inevitavelmente se exaurem, pois somos abandonados pelo amor, humor, prazer das viagens e da equitação, aptidão para relações sociais; amigos e parentes também nos são tomados pela morte. Aquilo que se possui em si mesmo adquire, neste período, importância capital, pois é a única coisa que resistirá ao tempo; em qualquer idade, isso é e permanece a única fonte genuína e duradoura de felicidade. Não há muito a se ganhar com o mundo; a miséria e a dor preenchem-no; se um homem escapar-lhes, o tédio estará à espreita em cada canto. Ademais, são a baixeza e a perversidade que governam o mundo, e a tolice predomina. O destino é cruel e a humanidade é desprezível. Em um mundo dessa natureza, o indivíduo rico em si mesmo é como uma habitação iluminada, quente e alegre em meio à neve e ao gelo de uma noite de dezembro. Por conseguinte, o destino mais afortunado nesta terra é, sem dúvida, possuir uma individualidade distinta e rica, e, particularmente, bons dotes intelectuais; esse é o destino mais feliz, embora talvez não seja, no fim, o mais brilhante. Havia muita sabedoria na observação que a Rainha Cristina de Suécia, aos dezenove anos, fez sobre Descartes, a quem só conhecia por meio de um ensaio e de relatos verbais e que então vivera na Holanda por vinte anos na mais profunda solidão. Mr. Descartes est le plus heureux de tous les hommes, et sa condition me semble digne d’envie [Descartes é o mais feliz de todos os homens, e sua condição me parece digna de inveja. (Vie de Descartes, Baillet, VII, 10)]. Naturalmente, como foi o caso com Descartes, as circunstâncias externas devem ser favoráveis o bastante para permitir que um homem seja seu próprio mestre, satisfeito com aquilo que é. Por isso, Eclesiastes (7:11) diz: Tão boa é a sabedoria como a herança, e dela tiram proveito os que veem o sol. O homem ao qual a natureza e o destino concederam o dom da sabedoria velará e cuidará para assegurar que a fonte interior de sua felicidade permaneça acessível, e as condições para isso são a independência e o ócio. E os obterá, de bom grado, pelo preço da moderação e da parcimônia, visto que não está, como outros, restrito às fontes exteriores de prazer. Por isso a perspectiva dos cargos, do dinheiro, do favor e da aprovação do mundo não o induzirão a renunciar a si próprio a fim de adaptar-se às perspectivas sórdidas ou ao gosto vulgar dos homens. [3] Quando esse for o caso, seguirá o conselho dado por Horácio em sua epístola a Mecenas: Nec somnum plebis laudo, satur altilium, nec Otia divitiis Arabum Liberrima muto [não faço elogio ao sono da plebe nem troco meu ócio pelos tesouros da Arábia (I, 7)]. É uma grande tolice sacrificar o interior em troca do exterior, isto é, abdicar, em todo ou em parte, da quietude, do ócio e da independência pelo esplendor, a posição, a pompa, os títulos e as honras. Entretanto, foi o que Goethe fez; pessoalmente, meu gênio me tem conduzido decididamente ao caminho oposto.
A verdade aqui examinada, de que a principal causa da felicidade humana vem de dentro de nós próprios, também é confirmada pela observação muito acertada de Aristóteles em Ética a Nicômaco (I. 7; e VII. 13, 14), onde diz que todo prazer pressupõe algum tipo de atividade e, portanto, a aplicação de alguma forma de força, sem a qual não pode existir. Esse ensinamento aristotélico, de que a felicidade do homem consiste no livre exercício de suas faculdades mais elevadas, também é apresentado por Estobeu em sua exposição da moral peripatética (Eclogae ethicae, II, 7), por exemplo: felicitatem esse functionem secundum virtutem, per actiones successus compotes [a felicidade consiste em exercer as próprias virtudes em trabalhos que atingem os resultados desejados]; explica também que por ἀρέτη [virtude] designa toda forma de maestria. Assim sendo, o propósito original dessas forças que a natureza proveu ao homem é a luta contra a necessidade e a privação, que o assaltam por todas as partes. Quando essa luta cessa, suas forças sem emprego se transformam em um fardo, e então precisa jogar com elas, isto é, usá-las sem qualquer objetivo, pois, do contrário, expõe-se à outra fonte de sofrimento humano, o tédio. Assim, são as classes altas, os ricos, as maiores vítimas desse mal, e Lucrécio nos forneceu uma descrição de sua condição lamentável. A verdade desta descrição ainda pode ser reconhecia nos dias de hoje em todas as grandes cidades:
Exit saepe foras magnis ex aedibus ille,
Esse domi quem pertaesum est, subitoque reventat;
Quippe foris nihilo melios qui sentiat esso.
Currit, agens mannos, ad villam praecipitanter,
Auxilium tectis quasi ferre ardentibus instans:
Oscitat exemplo, tetigit quum limina villae;
Aut abit in somnum gravis, atque oblivia quaerit;
Aut etiam properans urbem petit, atque revisit.
[Frequentemente sai dos grandes palácios aquele que está aborrecido de estar em casa, e volta em um momento porque não se sente melhor que em casa. Ou corre desesperadamente à sua casa de campo como se levasse socorro a uma casa incendiada. Mas assim que cruza os umbrais, boceja de tédio ou cai num sono profundo buscando esquecer a si próprio, a não ser que prefira retornar à cidade. (De natura Deorum, III, 1060–7.)]
Em sua juventude, esses indivíduos provavelmente tiveram uma abundância de força muscular e reprodutora. Com o passar dos anos, restam apenas os poderes mentais; se houver falta desses ou dos materiais necessários à sua atividade, sua condição é miserável. Visto que a vontade é a única força inesgotável, tentam estimulá-la excitando as paixões, por exemplo, com grandes apostas em jogos de azar, esse vício deveras degradante. Pode-se dizer que, em geral, todo indivíduo desocupado escolherá uma atividade adequada ao exercício de suas forças predominantes; pode ser jogo de bilhar ou xadrez, caça ou pintura, corrida de cavalos ou música, jogos de carta ou poesia, a heráldica ou a filosofia, e assim por diante. Poderíamos investigar tais interesses metodicamente, reduzindo-os à raiz das três forças fisiológicas fundamentais. Temos, pois, de considerá-los em seu exercício sem objetivo, no qual se manifestam como a origem de três tipos possíveis de prazer. Dentre esses, cada homem escolherá o que lhe é mais adequado segundo a predominância nele de uma ou outra dessas forças. Primeiramente, temos os prazeres da força reprodutiva, que consistem na comida, na bebida, na digestão, no descanso e no sono. Há mesmo nações inteiras nas quais esses são considerados prazeres nacionais. Depois, temos os prazeres da irritabilidade, que consistem na caminhada, corrida, luta, dança, esgrima, equitação e jogos atléticos de todo gênero, incluindo também a caça e até os combates de guerra. Finalmente, temos os prazeres da sensibilidade, que consistem no contemplar, pensar, sentir, fazer poesia, tocar música, estudar, ler, meditar, inventar, filosofar etc. Sobre o valor, o grau e a duração de cada um desses tipos de prazer podem ser feitas muitas observações, mas deixo tal cuidado aos leitores. Mas todos constatarão claramente que, quanto mais nobre é a natureza da força que condiciona nosso prazer, maior esse será; isso porque é condicionado pelo emprego de nossas próprias forças e nossa felicidade consiste na repetição frequente desse prazer. Ninguém negará, nesse respeito, que a sensibilidade, cujo predomínio decidido estabelece a distinção entre o homem e as demais espécies animais, tem primazia sobre as outras duas forças fisiológicas fundamentais, que existem no animal no mesmo grau ou talvez em grau mais enérgico que no homem. Nossas forças cognitivas estão relacionadas à sensibilidade; assim, sua preponderância nos qualifica para aquilo que se denominam prazeres espirituais, que consistem no entendimento; e tais prazeres serão, de fato, tanto maiores quanto mais acentuada for essa preponderância. [4] O homem normal, vulgar, só nutre um interesse vívido por algo na medida em que excita sua vontade, ou seja, na medida em que é um interesse pessoal. Mas a excitação contínua da vontade nunca é um bem puro, ou seja, envolve dor. Os jogos de cartas, essa ocupação universal da “boa sociedade” em todos os países, são um meio de proporcionar esse tipo de excitação, e isso através de interesses tão ínfimos que não podem acarretar mais que dores momentâneas e ligeiras, nunca dores permanentes e sérias. O jogo de cartas, na verdade, pode ser considerado como simples cócegas da vontade. [5] Por outro lado, o homem dotado de grande força intelectual é capaz – e tem necessidade – de interessar-se vivamente pelas coisas no caminho da inteligência pura, sem qualquer mescla de vontade. Esse interesse o transporta então a uma região onde a dor é essencialmente estranha; transporta-o, por assim dizer, à atmosfera onde os deuses vivem fácil e serenamente, Θεῶν ῥεῖα ζωόντων [dos deuses que vivem com leveza]. Entretanto, a vida das massas transcorre no entorpecimento, visto que seus pensamentos e desejos se dirigem para interesses mesquinhos do bem-estar pessoal, com suas misérias de toda espécie. Por tal razão, um tédio intolerável se apodera deles desde o momento em que tais objetivos estejam satisfeitos, e ficam reduzidos a si mesmos, sendo que apenas o fogo selvagem da paixão pode incitar ação nas massas embotadas e indolentes. Pelo contrário, a existência do homem dotado de faculdades intelectuais excepcionais é rica em idéias e cheia de vida e significado. Objetos dignos e interessantes ocupam-no assim que tiver a liberdade para devotar-se a eles, carregando dentro de si um manancial dos prazeres mais nobres. O estímulo exterior lhe vem das obras da natureza e da contemplação da atividade humana, assim como das muitas e variadas produções dos espíritos mais eminentes de todos os tempos e de todos os países; apenas tal homem será capaz de desfrutar tais obras completamente, pois é o único que pode compreendê-las e senti-las em sua plenitude. Logo, foi apenas para ele que os grandes espíritos viveram; para ele se dirigiram realmente; o resto não passa de ouvintes ocasionais que entendem uma coisa ou outra pela metade. Naturalmente, o homem de intelecto tem mais necessidades que os outros homens, a necessidade de aprender, de ver, de estudar, de meditar, de praticar e, consequentemente, também a necessidade de ócio. Pois, como Voltaire observou exatamente, il n’est de vrais plaisirs qu’avec de vrais besoins [não há verdadeiros prazeres sem verdadeiras necessidades]; e essa necessidade é a condição para alcançar os prazeres que sempre serão inacessíveis aos demais. De fato, para esses últimos, mesmo quando estão rodeados de belezas da natureza e da arte, de obras intelectuais de toda espécie, tais coisas no fundo lhes são aquilo que cortesãs são para um velho. Como resultado, um homem assim privilegiado tem duas vidas, uma pessoal e uma intelectual. E essa última gradualmente chega a ser seu verdadeiro fim, para o qual a primeira não foi considerada mais que um meio, enquanto que para o resto dos homens sua própria existência, superficial, vazia e atormentada, deve ser tida como um fim em si mesmo. O homem superior terá essa vida intelectual como principal ocupação. Através da constante expansão de seu juízo e conhecimento, essa vida intelectual, como uma obra de arte em vias de formação, adquire uma consistência, uma intensidade permanente, uma unidade cada vez mais completa. Comparada com esta, as vidas puramente práticas dos demais traçam uma contraste penoso, dirigidas unicamente ao conforto pessoal, uma vida que pode se alargar, mas nunca se aprofundar. Não obstante, como disse, para os demais tal vida deve ser considerada como um fim em si mesmo, enquanto que para o homem de intelecto é apenas um meio.
Nossa vida prática, real, quando as paixões não a agitam, é tediosa e monótona; quando a agitam, torna-se dolorosa. Por isso só são felizes aqueles que houverem recebido como patrimônio uma soma de inteligência que excede a medida que o serviço de sua vontade reclama. Porque assim podem levar, além de sua vida efetiva, uma vida intelectual que os ocupa e diverte sem dor, podendo mantê-la vivaz e atarefada. O simples ócio, isto é, a inteligência desocupada a serviço da vontade, não basta; é preciso um excedente de força, pois apenas isso nos torna aptos para uma ocupação puramente espiritual que não esteja a serviço da vontade. Pelo contrário, otium sine litteris mors est et hominis vivi sepultura [o ócio sem os estudos é morte e sepultura do homem vivo. (Sêneca, Epistulae, 82)]. Na medida desse excedente, a vida intelectual que existe ao lado da vida real apresentaria inumeráveis gradações, desde os trabalhos do colecionador que descreve os insetos, os pássaros, os minerais, as moedas, até as mais elevadas produções da poesia e da filosofia. Uma vida intelectual como esta protege não só contra o tédio, mas também contra suas perniciosas consequências. Resguarda, com efeito, contra as más companhias e contra os numerosos perigos, as desgraças, as perdições e as extravagâncias a que se está exposto ao buscar sua felicidade apenas no mundo externo. Quanto a mim, por exemplo, minha filosofia nunca me faz ganhar nada, mas me poupou de muitas perdas.
O homem normal, pelo contrário, está limitado, quanto aos prazeres da vida, às coisas exteriores, tais como a riqueza, a posição, a esposa, os filhos, os amigos, a sociedade etc.; nisso se funda a felicidade de sua vida. De modo que tal felicidade se desmorona quando essas coisas são perdidas ou o desiludem. Podemos caracterizar essa relação dizendo que seu centro de gravidade está fora dele. Por isso seus desejos e seus caprichos são sempre variáveis; quando seus meios permitirem, comprará prontamente coisas como casas de campo ou cavalos, dará festas ou empreenderá viagens; em geral, levará uma vida suntuosa, tudo isso precisamente porque busca em qualquer parte uma satisfação vinda de fora. É como um homem extenuado que espera encontrar em soluções e em remédios a saúde e o vigor cujo verdadeiro manancial é própria a força vital. Para não passar imediatamente ao extremo oposto, tomemos agora um homem dotado de uma potência intelectual que, sem ser excessiva, excede, todavia, a medida comum e estritamente suficiente. Veremos esse homem, quando as fontes exteriores de prazer esgotarem-se ou deixarem de satisfazê-lo, cultivar de modo obcecado algum ramo das belas artes, ou então alguma ciência, tal como botânica, mineralogia, física, astronomia, história etc., e encontrar nela grande prazer e diversão. Por tal razão, podemos dizer que seu centro de gravidade está parcialmente dentro dele. Não obstante, o mero diletantismo na arte ainda está muito distante da faculdade criadora, e o mero conhecimento científico deixa de lado as relações dos fenômenos entre si, não sendo capazes de absorver completamente o homem comum; não podem ocupar todo o seu ser e, por conseguinte, entrelaçar-se tão estreitamente na trama de sua existência que se veja incapaz de nutrir interesse por todo o resto. Isso está reservado exclusivamente à suprema eminência intelectual, comumente denominada gênio; somente ela toma como assunto, íntegra e absolutamente, a essência e a existência das coisas. Depois, segundo sua tendência individual, trabalhará para expressar suas profundas concepções a esse respeito por meio da arte, da poesia ou da filosofia. Assim, apenas para um homem desse gênero é uma necessidade irresistível a ocupação permanente consigo mesmo, com seus pensamentos e com suas obras; para ele, a solidão é bem-vinda, o ócio é o bem supremo e todo o mais é supérfluo; na verdade, quando o possui, muitas vezes é um fardo. Somente em relação a esse homem podemos afirmar que seu centro de gravidade está completamente dentro dele. Isso explica-nos, ao mesmo tempo, por que esses homens de uma espécie tão rara, mesmo os de melhor caráter, não conferem aos seus amigos, à sua família, à comunidade em geral esse interesse íntimo e ilimitado de que muitos outros são capazes. Porque podem, em último caso, prescindir de tudo, contanto possuam a si próprios. Existe, pois, neles um elemento isolante, cuja ação será tanto mais enérgica na medida em que os demais homens não puderem satisfazer-lhes plenamente. Desse modo, não podem ver esses outros como seus iguais; na verdade, sentindo constantemente a dessemelhança de sua natureza em tudo e por tudo, habituam-se gradualmente a vagar entre os demais homens como se fossem seres de espécie distinta e, em suas meditações sobre os demais, a servir-se da terceira e não da primeira pessoa do plural. As virtudes morais beneficiam principalmente os outros; as virtudes intelectuais, por outro lado, beneficiam primariamente aqueles que a possuem; portanto, a primeira faz com que sejamos largamente estimados, a segunda, ignorados.
Considerado a partir desse ponto de vista, o homem mais bem dotado intelectualmente por natureza será o mais feliz, de modo que sem dúvida o subjetivo está mais próximo de nós que o objetivo; pois o efeito desse último, seja qual for sua natureza, nunca trabalha senão por intermédio do primeiro, isto é, do subjetivo, sendo a ação do objetivo apenas secundária. É o que escreve Luciano nestes belos versos:
A riqueza da alma é a única riqueza;
Os demais bens trazem mais problemas que vantagens.
(Epigrammata, 12.)
Um homem interiormente rico não pede ao mundo exterior mais que um dom negativo, a saber, ócio para poder cultivar e desenvolver as faculdades de seu espírito e para poder desfrutar de suas riquezas interiores. Reclama, pois, unicamente, toda a sua vida, todos os dias e todas as horas, ser ele mesmo. Para o homem destinado a imprimir a marca de seu espírito na humanidade inteira, não existe mais que uma só felicidade e uma só desgraça, isto é, poder aperfeiçoar suas habilidades e completar suas obras ou não. Todo o resto lhe é insignificante. Por isso, vemos os grandes espíritos de todos os tempos concederem o maior valor ao ócio. Porque o ócio de um homem vale tanto quando ele próprio. Videtur beatitudo in otio esse sita [a felicidade está no ócio], diz Aristóteles (Ética a Nicômaco, X. 7), e Diógenes Laércio (II.5.31) menciona também que Socrates otium ut possessionum omnium pulcherrimam laudabat [Sócrates exaltava o ócio como a mais bela das riquezas]. Essa também é a compreensão de Aristóteles quando declara que a vida mais bela é a do filósofo (Ética a Nicômaco, X, 7, 8, 9). Mesmo aquilo que disse em Política (IV. II) é relevante: exercer livremente seu talento, seja qual for, é a verdadeira felicidade. E Goethe em Wilhelm Meister: wer mit seinem Talent zu einem Talent geboren ist, findet in demselben sein schönstes Dasein [quem nasceu com um talento, para um talento, encontra no mesmo a sua mais bela existência]. Todavia, possuir ócio não só está fora do destino comum, senão também da natureza comum do homem, pois seu destino natural é empregar o tempo em adquirir o necessário para sua existência e para sua família. Esse é um filho da miséria e da privação, não um espírito livre. Por conseguinte, o ócio converte-se rapidamente em um peso – e, logo, num martírio – para o homem vulgar assim que não puder ocupá-lo com medidas artificiais e fictícias de todo tipo: com o jogo, com passatempos ou com hobbies de qualquer gênero. Por isso mesmo, o ócio traz também perigos, e disse-se com razão que difficilis in otio quies [difícil é a quietude no ócio]. Por outro lado, uma inteligência que excede em muito a medida normal é igualmente um fenômeno anormal e, por conseguinte, inatural. No entanto, uma vez que exista, o homem dotado dela, para encontrar a felicidade, necessita precisamente desse ócio que, para os demais, é imediatamente inoportuno ou pernicioso, de modo que, sem ócio, não seria mais que um Pégaso tolhido e, portanto, desgraçado. Entretanto, se essas duas anomalias, uma exterior e outra interior, se encontram reunidas, sua união produz um caso de suprema felicidade, porque o homem assim favorecido levará então uma vida de ordem superior, uma vida que se subtrai das duas fontes opostas de sofrimento humano, livre da necessidade e do tédio, livre do cuidado penoso de dedicar-se a sustentar sua existência e da incapacidade de suportar o ócio (i.e. a existência livre propriamente dita). O homem não pode esquivar-se desses dois males senão quando esses se neutralizam e se eliminam mutuamente.
Tendo em vista tudo que foi exposto acima, devemos considerar, por outro lado, que as grandes faculdades intelectuais, em consequência de uma atividade preponderante dos nervos, produzem uma grande sensibilidade à dor, em todas as suas formas. Ademais, o temperamento apaixonado que condiciona tais dons e, ao mesmo tempo, a maior vivacidade e perfeição de todas as imagens e concepções, que são inseparáveis deles, conferem às emoções produzidas uma violência incomparavelmente mais enérgica, enquanto que, em geral, há mais emoções dolorosas que agradáveis. Por fim, devemos lembrar também que as elevadas faculdades intelectuais fazem de seu possuidor um homem estranho ao resto da humanidade e às suas atividades. Isso porque, quanto mais possui em si mesmo, menos pode encontrar nos outros, e cem objetos, nos quais os demais sentem um prazer infinito, lhe parecem insípidos e repugnantes. Talvez dessa maneira a lei de compensação, que reina em tudo, domine igualmente aqui. Já se afirmou com frequência, e não sem alguma razão, que no fundo o homem mais limitado de espírito é mais feliz, embora ninguém o inveje por tal felicidade. Não quero antecipar ao leitor a solução definitiva dessa controvérsia, ainda porque o próprio Sófocles emitiu dois juízos diametralmente opostos:
Sapere longe prima felicitatis pars est.
[O saber é a parte principal da felicidade. (Antígona, 1328.)]
E, em outra parte, diz:
Nihil cogitantium jucundissima vita est.
[Na falta de inteligência consiste a vida mais agradável. (Ajax, 550.)]
Tampouco os filósofos do Antigo Testamento entendem-se entre si. Temos: A vida de um tolo é pior que a morte! (Jesus de Sirach, 12:12); em contrapartida: Porque na muita sabedoria há muito enfado; e o que aumenta em conhecimento, aumenta em dor (Eclesiastes, 1:18). Entretanto, não quero deixar de mencionar aqui que o homem sem necessidades espirituais, em virtude da medida escassa e estritamente normal de suas forças intelectuais, é o que se designa por filisteu. É uma expressão exclusivamente própria da língua alemã, proveniente das universidades; mas, posteriormente, foi empregada em um sentido mais elevado, ainda que análogo ao sentido original, que denota o oposto dos filhos das Musas. Assim, o filisteu é e permanece um ἄμουσος ἀνήρ [homem abandonado pelas musas]. Colocando-me em um ponto de vista mais elevado, gostaria de definir os filisteus dizendo que são pessoas constante e seriamente ocupadas com uma realidade que não é realidade. Entretanto, essa definição de natureza transcendental não se adequaria à perspectiva popular que adotei neste ensaio; poderia, por conseguinte, não ser compreendida por todos os leitores. A primeira definição, pelo contrário, admite mais facilmente uma elucidação especial e designa bastante bem a essência da questão, a raiz de todas aquelas qualidades que caracterizam o filisteu. Esse é, como temos dito, um homem sem necessidades espirituais. Disso segue-se que, no que diz respeito a ele próprio, nunca terá prazeres espirituais, segundo a máxima já citada, il n’est de vrais plaisirs qu’avec de vrais besoins [não há prazeres verdadeiros sem necessidades verdadeiras]. Nenhuma aspiração em adquirir conhecimento e juízo por eles próprios anima sua existência, tampouco qualquer aspiração aos prazeres estéticos, porque essas duas aspirações estão estritamente unidas. Quando a moda ou alguma outra autoridade lhe impõe esses prazeres, desvencilha-se deles o mais rapidamente possível, como alguém condenado ao trabalho forçado. Os únicos prazeres para ele são os sensuais, com os quais se sente compensado pela falta dos demais. Assim, ostras e champanhe são o fim supremo de sua existência, e o objetivo de sua vida é proporcionar para si mesmo tudo que contribua ao bem-estar corporal. É feliz na medida em que esse fim o ocupe inteiramente. Porque, se esses bens lhe foram outorgados de antemão, é imediatamente vítima do tédio, contra o qual se vale de todos os meios imagináveis, como bailes, teatros, sociedades, jogos de cartas, jogos de azar, cavalos, mulheres, bebidas, viagens etc. E, não obstante, tudo isso não basta para espantar o tédio quando a ausência de necessidades intelectuais torna impossíveis os prazeres intelectuais. Assim sendo, é uma característica própria do filisteu uma seriedade grave e seca, semelhante à do animal. Nada o alegra, nada o comove, nada desperta seu interesse; pois os prazeres sensuais se esgotam prontamente, e as sociedades, sendo compostas de tais filisteus, tornam-se logo tediosas; por fim, até o jogo de cartas acaba por aborrecê-lo. Seja como for, resta-lhe ainda desfrutar, à sua maneira, dos prazeres da vaidade. Esses consistem em exceder os demais em riqueza, posição, ou influência e poder, conquistando com isso seu apreço; ou então cuidará de, ao menos, rodear-se daqueles que transbordam essas vantagens, para assim aquecer-se no reflexo de seu esplendor (um snob). Dessa natureza fundamental do filisteu que acabamos de expor, segue-se que, no que diz respeito aos outros, como não possui necessidades intelectuais, mas apenas físicas, buscará os homens que possam satisfazer essas últimas e não as primeiras. A última coisa que espera de seus amigos é a posse de qualquer espécie de capacidade intelectual. Pelo contrário, quando as encontra, excitam sua antipatia e até seu ódio. Porque não sente em sua presença mais que uma inoportuna inferioridade e uma inveja surda e secreta, que oculta com o maior cuidado, dissimulando-a inclusive para si mesmo; embora, precisamente por isso, converte-se às vezes em uma raiva muda. Desse modo, nunca pensa em medir seu apreço ou sua consideração pelas faculdades do espírito, mas restringe-se exclusivamente à posição e à riqueza, ao poder e à influência, que aos seus olhos constituem as únicas qualidades verdadeiras, nas quais também deseja se distinguir. Tudo isso decorre do fato de que são homens sem necessidades espirituais.
Uma grande aflição para todos os filisteus é que as idealidades não os entretêm, e que, para se esquivarem do tédio, precisam sempre recorrer às realidades. Essas, por um lado, se esgotam rapidamente e, então, em vez de divertir, fatigam; por outro, arrastam consigo desgraças e males de toda espécie. Já as idealidades, por sua vez, são inesgotáveis e, em si mesmas, inofensivas e inocentes.
Em todas essas observações sobre as qualidades pessoais que contribuem à nossa felicidade, levei em conta as condições físicas e, principalmente, as qualidades intelectuais. Para uma explicação sobre influência direta e imediata da perfeição moral sobre nossa felicidade, remeto o leitor ao meu ensaio premiado Sobre o Fundamento da Moral, §22.
[1] A vida nômade, que representa o estágio mais baixo da civilização, pode também ser encontrada no mais elevado, onde todos são turistas ocasionalmente. O primeiro nasceu da necessidade, o segundo, do tédio.
[2] Aquilo que torna as pessoas sociáveis é exatamente sua pobreza interior.
[3] Esses alcançam sua prosperidade à custa de seu ócio; mas que benefício poderia haver na prosperidade se, para alcançá-la, devo abrir mão da única coisa que a torna desejável, a saber, o ócio?
[4] A natureza exibe um contínuo progresso, primeiro a atividade mecânica e química do mundo inorgânico, prosseguindo ao vegetal, com seu gozo surdo de si próprio, desse para o mundo animal, onde surgiu a aurora da inteligência e da consciência. A partir desse precário início, sobe grau por grau, cada vez mais alto, e, no último e supremo passo, chega ao homem. Em seu intelecto, a natureza alcança o ponto culminante e o fim de suas criações, fornecendo assim o mais perfeito e mais difícil presente que é capaz de produzir. Todavia, mesmo no interior da espécie humana, o entendimento apresenta numerosas diferenças observáveis de grau, e apenas em casos extremamente raros alcança o grau mais elevado, uma inteligência realmente eminente. Esse é, pois, em seu sentido mais estrito e rigoroso, o produto mais difícil e supremo da natureza e, consequentemente, o mais raro e precioso que o mundo pode oferecer. Em tal inteligência, apresenta-se o conhecimento mais sóbrio e nela se reflete o mundo de modo mais claro e completo que em qualquer outro objeto. Assim, o ser que está dotado de tal inteligência possui o mais nobre e delicado que há na terra, possui um manancial de prazeres em comparação com o qual todos os demais são ínfimos. Dessa forma, não pede nada do mundo exterior senão ócio para desfrutar em paz de seu bem e polir seu diamante. Pois todos os demais prazeres não-intelectuais são de natureza baixa; todos conduzem a movimentos da vontade, tais como anseios, esperanças, temores e ambições, seja qual for sua natureza. Nada disso se realiza sem dor; ademais, no caso das conquistas, surge a decepção mais ou menos como uma regra, ao passo que com os prazeres intelectuais a verdade se faz cada vez mais clara. Nenhuma dor existe no domínio da inteligência, nele tudo é conhecimento. Por isso, os prazeres intelectuais são acessíveis a todos por meio – e, portanto, na mesma medida – da própria inteligência; pois tout l’esprit qui est au monde, est inutile à celui qui n’en a point [toda a inteligência que há no mundo é inútil àquele que não tem nenhuma (La Bruyère)]. Entretanto, uma desvantagem que sempre acompanha esse privilégio é que, em toda a natureza, a suscetibilidade à dor aumenta à medida que se eleva o grau de inteligência, chegando ao seu apogeu na inteligência mais elevada.
[5] A vulgaridade consiste, no fundo, no tipo de consciência na qual a vontade predomina completamente sobre o intelecto, onde o último não faz mais que estar a serviço de sua soberana, a vontade. Quando tal serviço não exige inteligência, quando não existem motivos nem grandes nem pequenos, o entendimento cessa por completo e sobrevém uma vacuidade absoluta de pensamentos. A vontade sem intelecto é a coisa mais comum e vulgar que há; algo que todo bronco possui e manifesta quando cai. Esse estado constitui, pois, a vulgaridade, no qual os únicos elementos ativos são os órgãos dos sentidos e a pequena quantidade de intelecto necessária para apreender os dados dos sentidos. Por conseguinte, o homem vulgar sempre está receptivo a todas as impressões e percebe instantaneamente tudo que se passa ao seu redor, de modo que o menor som, qualquer circunstância, por insignificante que seja, desperta imediatamente sua atenção, assim como ocorre com os animais. Essa condição mental revela-se em seu semblante e no todo de sua aparência exterior; daí resulta a aparência vulgar cuja impressão é ainda mais repulsiva quando, como é frequente, sua vontade – o único fator de sua consciência – é baixa, egoísta e má.
Capítulo III
O que um homem tem
Epicuro, o grande doutor em felicidade, dividiu de modo admirável e judicioso as necessidades humanas em três classes. Primeiramente, as necessidades naturais e necessárias que, se não satisfeitas, produzem dor. Compreendem, pois, apenas o victus et amictus [comida e vestimenta] e são fáceis de satisfazer. Depois, as necessidades naturais que não são necessárias, isto é, as necessidades de satisfação sexual, ainda que Epicuro não a afirme em relação a Laércio; (reproduzo, no geral, toda essa doutrina de forma sutilmente modificada e corrigida). Essas necessidades são mais difíceis de satisfazer. Finalmente, as que não são naturais nem necessárias, as necessidades do luxo, da abundância, da pompa e do esplendor, que são infindáveis e muito difíceis de satisfazer. (cf. Diógenes Laércio, X, c. 27, §149 e §127, e Cícero, De finibus, I, c. 14 e 16).
É difícil, senão impossível, definir o limite de nossos desejos razoáveis em relação à fortuna. Porque a satisfação quanto a isso não repousa em uma quantidade absoluta, mas relativa, a saber, na relação entre os desejos e a fortuna. Assim, pois, considerar as posses em si mesmas é algo tão desprovido de sentido como considerar o numerador de uma fração sem denominador. A ausência de certos bens aos quais um homem nunca pensou em aspirar não lhe faz falta alguma, e ficará perfeitamente satisfeito sem eles; enquanto outro, que possui cem vezes mais que o primeiro, se sentirá desgraçado porque lhe falta exatamente o objeto que deseja. Nesse respeito, cada qual tem também seu próprio horizonte do que lhe é possível conseguir, e suas pretensões não ultrapassam esses limites. Quando um objeto, situado dentro de seus limites, se lhe apresenta de tal maneira que possa estar seguro de consegui-lo, se sentirá feliz; pelo contrário, se sentirá desgraçado se obstáculos o despojarem dessa perspectiva. O que está além desse horizonte não exerce nenhuma influência sobre ele. Por isso a grande fortuna do rico não incomoda o pobre; por outro lado, quando fracassa em seus planos, o homem rico não é consolado por todas as riquezas que já possui. A riqueza é como a água do mar; quanto mais se bebe, mais sede produz; o mesmo ocorre também com a glória. Após a perda de riqueza ou posição, nosso humor habitual não diferirá muito do que antes nos era próprio, assim que a dor inicial for superada. O motivo disso é que, havendo o destino diminuído nossas posses, nós próprios reduzimos nossas pretensões na mesma medida. No caso de uma desgraça, essa operação é extremamente dolorosa; uma vez verificada essa operação, a dor se faz cada vez menos intensa e acaba por desaparecer; a ferida se cicatriza. Contrariamente, no advento de um acontecimento feliz, nossas pretensões se elevam e se dilatam; nisso consiste o prazer. Porém, esse não dura mais que o tempo necessário para que essa operação seja realizada. Habituamo-nos à escala ampliada de nossas pretensões e nos fazemos indiferentes às riquezas que lhe são correspondentes. É isso que afirma a passagem de Homero, Odisséia, XVIII. 130–7, cujos dois últimos versos são:
Tal é o espírito dos homens terrestres, semelhantes aos dias concedidos pelo Pai de todos os homens e de todos os deuses.
A origem de nossa insatisfação está em nossos esforços sempre renovados para elevar o fator de nossas pretensões, enquanto que o outro fator permanece fixo e impede que isso aconteça.
Com uma raça tão pobre e cheia de necessidades, não surpreende que a riqueza seja estimada, e até venerada, mais intensa e sinceramente que qualquer outra coisa, e mesmo o poder não é considerado senão como um meio para atingir a fortuna. Não nos surpreende tampouco ver os homens porem de lado ou passarem por cima de qualquer outra consideração quando se trata de adquirir riquezas, por exemplo, quando vemos os próprios professores de filosofia se aproveitarem da filosofia para enriquecer.
Os homens são frequentemente acusados por seus desejos dirigirem-se principalmente ao dinheiro e por o amarem acima de tudo. Não obstante, é muito natural, e mesmo inevitável, amar aquilo que, como um Proteu infatigável, a qualquer momento está pronto a tomar a forma do objeto atual de nossos desejos cambiantes ou de nossas necessidades tão diversas. Isso porque qualquer outro bem não pode satisfazer mais que um só desejo, mais que uma só necessidade; por exemplo, os alimentos não valem senão para aquele que tem fome, o vinho para aquele que está sóbrio, os medicamentos para o enfermo, um cobertor durante o inverno, as mulheres para a juventude etc. Todas essas coisas são boas apenas para um propósito específico, isto é, são relativamente boas. Apenas o dinheiro é o bem absoluto, porque não satisfaz uma única necessidade in concreto, senão a necessidade em geral, in abstracto.
A fortuna disponível deve ser considerada como um baluarte contra o grande número de males e desgraças que podem suceder. Não devemos considerá-la como uma permissão e ainda menos como uma obrigação de ter que buscar os prazeres do mundo. As pessoas que, sem terem fortuna patrimonial, chegam por seu talento a porem-se em condições de ganhar muito dinheiro quase sempre são vítimas da ilusão de acreditar que seu talento é um capital permanente e que o dinheiro que esse talento produz é, por conseguinte, o interesse capital. Assim, não reservam nada daquilo que ganham para consolidar um capital duradouro, mas gastam na mesma medida em que ganham. Segue-se que, comumente, caem na pobreza quando seus ganhos diminuem ou cessam por completo, porque seu próprio talento, passageiro por natureza, por exemplo, o talento para quase todas as belas artes, se esgota, ou bem as circunstâncias especiais que lhe faziam produtivo desaparecem. Alguns artesãos podem, de fato, levar essa existência, porque as capacidades exigidas para seu ofício não se perdem facilmente ou podem ser supridas pelo trabalho de seus obreiros, ademais, seus produtos são objetos de necessidade, cuja demanda está sempre assegurada; um provérbio alemão diz com razão Ein Handwerk hat einen goldenen Boden [um trabalho manual vale como ouro]. Entretanto, não ocorre o mesmo com os artistas e com os virtuosi de toda espécie, exatamente por isso são tão bem pagos. Assim sendo, aquilo que ganham deveria tornar-se seu capital, porém, em sua presunção, o consideram como se não fosse mais que os juros e, assim, rumam à sua ruína. Em contrapartida, as pessoas que possuem fortuna patrimonial sabem muito bem, desde o princípio, distinguir entre um capital e os juros. Assim, pois, a maioria tratará de assegurar seu capital, e não o hipotecará em caso algum; e até reservará, se possível, pelo menos um oitavo dos juros para aliviar uma crise eventual; dessa forma conseguem preservar sua riqueza. Nada do que acabamos que dizer se aplica aos comerciantes, para os quais o dinheiro é, em si mesmo, o instrumento da ganância, o utensílio profissional, por assim dizer. Disso segue-se que, ainda quando o dinheiro é adquirido por seu próprio trabalho, buscarão conservá-lo e aumentá-lo através do modo como o empregam. Assim, em nenhuma outra classe a riqueza é tão habitual como na dos comerciantes.
Em geral, se observará que, comumente, os que já vivenciaram verdadeira necessidade e privação as temem menos e estão mais inclinados à extravagância que os que não conhecem esses males senão por referência. À primeira categoria pertencem todos os que, por qualquer sorte ou por habilidades especiais, tenham passado rapidamente da pobreza ao bem-estar; à outra, os que tenham nascido com fortuna e a conservaram, e que comumente se preocupam mais com o porvir e, portanto, são mais econômicos que os primeiros. Daí se poderia deduzir que a necessidade, vista desse ângulo, não é uma coisa tão má como parece. Não obstante, a verdadeira razão talvez seja que, para o homem nascido com uma fortuna patrimonial, a riqueza parece algo indispensável, como o elemento da única existência possível, como o ar. Logo, cuidará dela como sua própria vida e será, geralmente, ordeiro, prudente, precavido e econômico. Pelo contrário, para aquele que, desde seu nascimento, viveu na pobreza, esta lhe parecerá o estado natural; mas a riqueza que, de algum modo, adquirir posteriormente, será considerada uma coisa supérflua, útil apenas para desfrutar dela e esbanjá-la. Pois, quando a houver perdido, saberá sair do apuro sem ela como antes, e ainda se livrará de um peso. As coisas são como Shakespeare diz em Henrique VI (III, I, 4):
The adage must be verified
That beggars mounted run their horse to death.
[deve cumprir-se o adágio, que o mendigo montado faz seu cavalo galopar até a morte.]
Acrescentemos que essas pessoas possuem, não tanto em sua cabeça como em seu coração, uma firme e excessiva confiança por uma parte em sua sorte e, por outra, em seus próprios recursos, que os têm ajudado a escapar das necessidades e da indigência. Assim, diferentemente dos ricos de nascimento, não consideram a miséria como um abismo sem fundo, senão como o chão de um pântano no qual basta pisar para que se remonte à superfície. Por esta mesma particularidade humana se pode explicar como algumas mulheres, pobres antes de seu matrimônio, são, muito comumente, mais pretensiosas e mais extravagantes que as que receberam um bom dote. Pois, na maioria dos casos, as mulheres ricas não só ostentam a fortuna, senão também mais agudeza e, por assim dizer, mais instinto hereditário para conservá-la que as pobres. Não obstante, os que quiserem sustentar a tese contraria encontrarão uma autoridade para sua visão na primeira sátira da Ariosto. Por outro lado, o doutor Johnson se junta à minha opinião: A woman of fortune being used to the handling of money, spends it judiciously; but a woman who gets the command of money for the first time upon her marriage, has such a gusto in spending it, that she throws it away with great profusion. [uma mulher rica, que está acostumada a manejar dinheiro, o gasta com moderação; porém, uma mulher que em seu matrimônio toma pela primeira vez o cargo da administração da fortuna tem tal gosto em gastá-lo que esbanja o dinheiro com grande profusão. (Boswell, Life of Johnson, ann. 1776, aetat, 67.)] Em todo caso, aconselharia a quem se casa com uma mulher pobre que deixasse não um capital, mas uma simples renda e, sobretudo, que velasse para que a fortuna dos filhos não caia em suas mãos.
Não creio de maneira alguma fazer nada que seja indigno de minha pena ao recomendar aqui o cuidado de conservar sua fortuna, adquirida ou herdada. Porque é uma vantagem inapreciável possuir uma fortuna, ainda quando não baste mais que para permitir viver comodamente, só e sem família, em uma verdadeira independência, isto é, sem ter necessidade de trabalhar. Nisso consiste a imunidade que exime das misérias e dos tormentos da vida humana, essa é a emancipação da escravidão universal, que é o destino dos filhos da terra. Só por esse favor se é um homem nascido verdadeiramente livre; apenas com essa condição se é realmente sui juris [seu próprio senhor], senhor de seu tempo e de suas forças, e pode dizer a cada manhã: A jornada é minha. Pelo mesmo motivo, a diferença entre o homem que tem mil de renda por ano e outro que tem cem é infimamente menor que entre o primeiro e aquele que não tem nada. Porém, a fortuna patrimonial alcança seu valor mais elevado quando ele tem a sorte de, dotado de forças intelectuais superiores, perseguir projetos cuja realização não se acomoda a um trabalho feito para ganhar a vida. Colocado nessas condições, esse homem está duplamente dotado de sorte, pois pode viver a serviço de seu gênio e pagará o cêntuplo de sua dívida para com a humanidade, produzindo o que nenhum outro poderia produzir e criando algo que contribuirá para o bem de todos e ao mesmo tempo para a honra da sociedade humana. Outro, colocado em uma situação tão favorável, merecerá o bem da humanidade por suas obras filantrópicas. Enquanto que, possuindo um patrimônio, não produz nada semelhante, ainda que seja a título de ensaio, ou que por meio de estudos sérios não cria ao menos a possibilidade de fazer progredir uma ciência, é um homem desprezível. Tampouco será feliz, porque a tentativa de redimir-se da necessidade o transporta ao outro pólo da miséria humana, o tédio, que lhe atormente de tal maneira que seria muito mais feliz se a necessidade lhe houvesse imposto uma ocupação. Esse tédio lhe fará lançar-se facilmente a extravagâncias que minarão essa fortuna da qual não era digno. Na verdade, uma multidão de pessoas está na indigência por haver gasto o dinheiro que tinham a fim de proporcionarem-se um alívio momentâneo do tédio que os consumia.
Algo muito distinto ocorre quando o fim que se persegue é elevar-se em serviço do Estado, quando se trata, por conseguinte, de obter favor, amigos, relações, por meio dos quais se possa subir de grau em grau e chegar talvez algum dia aos postos mais elevados. Em tal caso, no fundo, mais valeria ter chegado ao mundo sem a menor fortuna. Para um indivíduo que não é da aristocracia e que tem algum talento, ser um pobre indigente constitui uma vantagem real. Porque o que cada qual busca e ama, antes de tudo, tanto na simples conversa como forçosamente no serviço público, é a inferioridade do outro. Assim sendo, somente um miserável está convencido e penetrado de sua inferioridade profunda, positiva e indiscutível, de sua completa insignificância e de sua nulidade, convenientemente às circunstâncias. Só um miserável se inclina muito frequentemente e por muito tempo, e sabe encurvar sua espinha dorsal em reverências de noventa graus bem contados; só ele sofre com um sorriso nos lábios; só ele reconhece que os méritos não têm valor algum; só ele apregoa como obras mestras, publicamente, em voz alta, ou em grossos caracteres impressos, as inépcias literárias de seus superiores ou dos homens influentes em geral; só ele sabe mendigar; por conseguinte, só ele pode iniciar-se a tempo, isto é, desde sua juventude, nesta verdade oculta que Goethe nos revelou nestes termos:
Ueber’s Niederträchtige
Niemand sieh belklage;
Denn es ist das Mächtige,
Was man dir auch sage.
(Westöstlicher Diwan)
[Nada se queixe da inferioridade, porque é o que move o mundo, diga-se o que se quiser.]
Aquele que, pelo contrário, herda de seus pais uma fortuna suficiente para viver será, em geral, recalcitrante; está acostumado a caminhar tête levée [com a cabeça erguida]; não aprendeu todas essas artes de mendigo. Talvez até se vanglorie de ostentar certas habilidades que possui, mas deveria compreender quão insuficientes são perante o médiocre et rampant [medíocre e rasteiro]. Por fim, é bem capaz de observar a inferioridade dos que estão colocados sobre ele; e se, além disso, as coisas chegarem a ser indignas, se faz contemplativo e misantropo. Não se vence com isso no mundo. Pelo contrário, poderá dizer, finalmente, como o descarado Voltaire: Nous n’avons que deux jours à vivre: ce n’est pas la peine de les passer à ramper sous des coquins méprisables [Não temos mais que dois dias de vida; não vale a pena passá-los rastejando aos pés de patifes desprezíveis]. Desgraçadamente, o termo coquin méprisable é um atributo que se pode aplicar a muitos indivíduos neste mundo. Vemos, pois, que as palavras da Juvenal
Haud facile emergunt, quorum virtutibus obstat
Res angusta domi,
[É difícil abrir passagem onde as condições miseráveis da casa são obstáculo ao desenvolvimento dos altos dotes. (Sátiras, III. 164.)]
se aplicam melhor à carreira das pessoas ilustres que à das pessoas mundanas.
Entre as coisas que um homem possui, não se considerou mulher e filhos, porque na verdade o indivíduo é possuído por eles. Com mais razão poderíamos incluir os amigos, porém também aqui o proprietário deve ser do mesmo modo propriedade do outro.
Capítulo IV
O que um homem representa
O que representamos, isto é, nossa existência na opinião dos demais, se aprecia excessivamente, em geral, devido a uma debilidade particular de nossa natureza; ainda que a menor reflexão possa ensinar-nos que isso, em si, não tem importância alguma para nossa felicidade. Assim, pois, é trabalhoso explicar o motivo da grande satisfação interior que experimenta todo homem sempre que observa um rastro de opinião favorável dos demais e sua vaidade, de algum modo, é agradada. Um gato se põe a miar quando é acariciado; e, tão infalivelmente, se um homem é elogiado, vê-se refletir um doce êxtase em seu semblante; especialmente quando o elogio está na esfera de suas pretensões, o elogio pode ser uma mentira palpável. Os sinais de aprovação dos demais lhe consolam, às vezes, de uma desgraça real ou da escassez com que fluem para eles as fontes principais da felicidade de que temos tratado até agora. Reciprocamente, é assombroso ver como se repugna de uma maneira infalível, e muitas vezes se sente dolorosamente afetado por qualquer lesão de sua ambição, em qualquer sentido, grau ou circunstância, e por todo desdém, por toda negligência, pela menor falta de consideração. Enquanto que serve de base ao sentimento de honra, essa característica pode exercer uma influência saudável sobre a boa conduta de muitas pessoas, como substituto de sua moralidade; porém, quanto à sua ação sobre a verdadeira felicidade do homem e especialmente sobre o repouso e a independência da alma, seu efeito é mais perturbador e prejudicial que favorável. Por isso, deste nosso ponto de vista, é prudente impor limites a essa característica e moderar tanto quanto possível, por meio de reflexões e uma apreciação exata do valor dos bens, essa grande suscetibilidade a respeito da opinião do outro, não apenas quando é agradada, mas também quando é ferida, porque ambos os casos têm a mesma origem. Do contrário, permanecemos escravos da opinião e do sentimento dos demais.
Sic leve, sic parvum est, animum quod laudis avarum
Subruit ac reficit.
[Quão leve, quão insignificante é o que abate ou reconforta meu espírito, ávido de elogio. (Horácio, Epistulae, II. I. 179.)]
Por conseguinte, uma justa comparação do valor daquilo que se é em e por si mesmo com o que se é aos olhos dos demais contribuirá muito à nossa felicidade. O primeiro termo da comparação compreende tudo que ocupa o tempo de nossa própria existência, o conteúdo íntimo desta e, portanto, todos os bens que temos examinado nos capítulos intitulados Aquilo que um homem é e Aquilo que um homem tem. Porque o lugar de onde se situa a esfera de atividade de tudo isso é a própria consciência do homem. Pelo contrário, o lugar de tudo o que somos para os demais é a consciência de outrem; é a figura pela qual nos aparecemos a ela, assim como as noções que a ela se referem. [1] Pois bem, essas são coisas que sem dúvida não existem diretamente para nós, mas apenas indiretamente, isto é, enquanto determinam a conduta dos demais para conosco. E isso mesmo não é levado em consideração senão enquanto influi sobre o que poderia modificar o que somos em e por nós mesmos. A parte isso, o que passa em uma consciência alheia nos é perfeitamente indiferente; e, por sua vez, nos faremos indiferentes na medida em que conhecermos bastante bem a superficialidade e a futilidade dos pensamentos, os limites estreitos das visões, a mesquinhez dos sentimentos, o absurdo das opiniões e o número de erros que se combina em quase todos os cérebros. Nos tornaremos indiferentes às opiniões dos outros quando, por nossa própria experiência, aprendermos com que desrespeito se fala em certas ocasiões de cada um de nós, assim que não houver motivo para receio, ou quando se crê que não o saberemos; mas, sobretudo, quando ouvirmos com que desdém meia dúzia de imbecis fala do homem mais distinto. Então compreenderemos que atribuir grande valor à opinião dos homens é honrá-los demasiado.
Em todo caso, está numa posição bastante ruim todo homem que não encontra a felicidade nas classes de bens de que já falamos, mas a busca nesta terceira, isto é, no que somos, não na verdade, mas na imaginação dos demais. Em tese geral, nossa natureza animal é a base de nosso ser e, por conseguinte, de nossa felicidade; o essencial para o bem estar é, pois, a saúde e depois os meios necessários para nossa manutenção e, por conseguinte, uma existência livre de cuidados. A honra, o esplendor, a grandeza, a glória, por muito valor que se lhes atribua, não podem substituir nem competir com esses bens essenciais, em favor dos quais, em circunstâncias adversas, não hesitaríamos em abrir mão dos primeiros. Assim, será muito útil para nossa felicidade compreender a tempo o singelo fato de que cada qual vive principal e efetivamente em sua própria pele e não na opinião dos demais e que, como é natural, nossa situação real e pessoal, tal como está determinada pela saúde, temperamento, faculdades intelectuais, renda, esposa, família, amigos, habitação etc. é cem vezes mais importante para nossa felicidade que o que os demais possam pensar de nós. A noção oposta nos tornará infelizes. Gritar enfaticamente que a honra é mais importante que a própria vida é equivalente a afirmar que a vida e a saúde não são nada e que a verdadeira questão é aquilo que os demais pensam de nós. Em suma, essa máxima pode ser considerada como uma hipérbole, cujo fundamento é a prosaica verdade de que a honra, isto é, a opinião dos demais sobre nós, é às vezes de uma utilidade indispensável para nossa vida e para avançarmos entre os homens. Voltarei posteriormente a este assunto. Pelo contrário, quando se vê como quase tudo que os homens perseguem durante sua vida inteira, à custa de esforços incessantes, de mil perigos e de mil dissabores, tem por objetivo último elevar sua reputação; que não se busca apenas os empregos, os títulos e as condecorações, senão também a riqueza e até a ciência [2] e as artes principalmente com esse único fim, quando se vê que o resultado definitivo que se procura conseguir é obter mais respeito dos demais, tudo isso então evidencia a enormidade da estupidez humana. Conceder demasiado valor à opinião é uma superstição universalmente dominante. Talvez tenha suas raízes em nossa própria natureza ou tenha surgido em consequência do nascimento das sociedades e da civilização. De qualquer modo, é certo que exerce em toda a nossa conduta uma influência desproporcional e hostil à nossa felicidade. Podemos traçar essa influência desde a ansiosa e servil deferência pelo qu’en dira-t-on [o que dirão?] até o caso em que Virgínio crava no peito de sua filha o punhal, ou bem leva o homem a sacrificar sua glória póstuma, seu repouso, sua fortuna, sua saúde e até sua vida. Essa idéia errônea oferece um recurso cômodo, é verdade, àquele que está encarregado de controlar ou guiar as pessoas; assim, pois, o preceito de manter em guarda ou estimular o sentimento de honra ocupa uma parte principal em todos os ramos da arte de dirigir os homens. Mas, em relação à própria felicidade do indivíduo, que aqui nos ocupa, ocorre outra coisa muito distinta; pelo contrário, devemos nos guardar de conceder demasiado valor à opinião dos demais. A experiência cotidiana, todavia, nos ensina que isso acontece diariamente, e que a maioria das pessoas atribui a maior importância precisamente àquilo que os outros pensam a seu respeito. Preocupam-se mais com isso do que com aquilo que existe imediatamente para elas porque isso ocorre em suas pró |